Pequim – Uma série de expurgos comandada pelo presidente Xi Jinping vêm remodelando o alto escalão das Forças Armadas chinesas, num movimento que já derrubou dezenas de oficiais graduados e expôs a perda de confiança do líder na cúpula que ele próprio promoveu ao longo da última década.
Presença reduzida de generais expõe crise
A dimensão da limpeza pôde ser vista numa recente reunião do Legislativo: em 2025, a TV estatal mostrou cerca de 40 generais no salão; no encontro deste ano, registrou apenas poucos oficiais. De semblante fechado, Xi advertiu que o Exército “não pode ter alguém de coração dividido” em relação ao Partido Comunista.
Expressão histórica de desconfiança
O termo “coração dividido”, extraído de tratados militares antigos, foi usado publicamente por Xi para caracterizar a maior convulsão política de seu mandato, iniciado em 2012. Segundo o professor Chien-wen Kou, da Universidade Nacional Chengchi (Taiwan), a frase remete a manuais que alertam governantes sobre generais traiçoeiros e indica o peso da ruptura.
Projeto de modernização em xeque
A crise atinge o plano de transformar o Exército de Libertação Popular (ELP) numa força capaz de operar novos porta-aviões, mísseis hipersônicos e um arsenal nuclear em expansão. Especialistas temem que a capacidade chinesa de combate fique comprometida por anos, justamente quando a rivalidade com os Estados Unidos se acirra.
Da luta anticorrupção à demissão em massa
Iniciada como campanha anticorrupção, a ofensiva ganhou amplitude com a queda, no começo de 2026, do general Zhang Youxia, 72, principal militar fardado do país e considerado aliado histórico de Xi. Ele se opôs à promoção do general Zhang Shengmin – responsável pelas investigações internas – a um posto equivalente ao seu. Meses depois, foi afastado, assim como seu vice, Liu Zhenli.
Antes, em 2025, dois ex-ministros da Defesa haviam sido condenados à morte (com pena suspensa de dois anos) por suborno, sentença que na prática os manterá presos por toda a vida.
Conflito entre lealdade e preparo bélico
Analistas apontam choque entre dois objetivos centrais de Xi: garantir prontidão para eventual guerra e exigir lealdade absoluta. A ascensão de Zhang Shengmin, com carreira focada em disciplina política, ilustra a prioridade dada ao controle ideológico sobre a experiência de combate.
Imagem: Internet
Reestruturação começou em 2012
Logo após assumir o poder, Xi abriu investigações contra oficiais que ganharam influência durante o governo Hu Jintao. Em 2014, convocou generais a Gutian, berço da doutrina “o partido comanda as armas”, para alertar sobre corrupção e insubordinação. A partir daí, substituiu sete antigas regiões militares por comandos teatrais e implantou o “sistema de responsabilidade do presidente”, que lhe dá acesso direto às tropas.
Destituições na Força de Foguetes
A sensação de estabilidade desabou em 2023, quando Xi trocou abruptamente o comandante e o vice-comandante da Força de Foguetes – braço que controla os mísseis nucleares e convencionais do país – e dispensou o então ministro da Defesa, sem explicar os motivos.
Nova campanha de doutrinação
Em abril de 2026, o presidente lançou programa de “retificação ideológica e forja revolucionária” nos quartéis. Na cerimônia em Pequim, transmitida pela televisão, oficiais tomavam notas enquanto Xi discursava; à sua direita estava Zhang Shengmin, agora um dos dois únicos remanescentes, ao lado do próprio Xi, na Comissão Militar Central.
A sucessão de demissões, investigações e mudanças hierárquicas reforça a determinação de Xi Jinping de manter controle absoluto sobre o ELP, ainda que isso sacrifique experiência operacional adquirida nas últimas décadas.
Com informações de InfoMoney
